7 coisas que você talvez você não saiba sobre os servidores públicos de TI

Repartição pública em preto e branco

No post de hoje falarei sobre aspectos peculiares dos profissionais de TI que trabalham em órgãos públicos como servidores.

Este texto se baseia na minha experiência como servidor em dois Tribunais Regionais do Trabalho (TRT). Mas já adianto que o trabalho no TRE e no TRF é muito parecido com o do TRT.

Para enriquecer o post, também juntei um pouco da percepção que tive quando trabalhei como terceirizado em órgãos estaduais do Rio Grande do Norte: um hospital, um órgão ambiental e uma secretaria de estado.

Vale frisar que a realidade da TI varia de órgão pra órgão e, sobretudo, de ente pra ente (municipal, estadual, federal). Por essa razão, não considere esse post como uma realidade unânime da TI nos órgãos públicos brasileiros.

1. Não trabalhamos só com coisas técnicas

Existem duas atividades que sempre executamos e que não são técnicas: contratações e fiscalização de contratos.

As contratações fazem parte da rotina de qualquer órgão, afinal, eles precisam comprar ou contratar softwares, equipamentos, serviços e capacitações. Portanto, para que isso aconteça, precisamos especificar cada item a ser comprado: quantidade, características técnicas, garantia, suporte, prazo para implantação, etc.

Talvez você já tenha ouvido falar em editais e termos de referência. Pois é, somos nós que os escrevemos. Esses são os principais documentos usados em uma licitação que é a compra ou contratação de bens e serviços pela administração pública.

Escrever esses documentos dá um trabalho medonho. Para você ter uma ideia, consumi 10 páginas para especificar um link de Internet.

Um horror, né? Nem sempre. É preciso especificar várias coisas como latência, jitter, SLA, horários de atendimento do suporte técnico e por aí vai!

Quando a licitação é concluída, inicia-se a prestação do serviço.

Nessa fase nos tornamos fiscais técnicos do contrato. Apesar do nome pomposo, é um trabalho chato e que ninguém quer fazer. Mensalmente precisamos avaliar os índices de SLA, aplicar multa, pedir nota fiscal, autorizar o órgão a fazer o pagamento e responder por tudo (de ruim) que acontecer nesse contrato.

Lembro de um pagamento de 2 milhões de reais referentes a aquisição de equipamentos de rede SAN e LAN. Eu e um colega que devíamos assinar. Era o meu maior pagamento até então.

Já esse colega estava fazendo o seu primeiro pagamento. Ele não queria assinar, verdade hehehe. No final deu tudo certo, mas é muita responsabilidade!

2. Somos tão competentes quanto os profissionais da iniciativa privada

Os servidores da infra por onde passei são de dar inveja a muita equipe de multinacional.

Com raras exceções, eu duvido que qualquer um deles ficasse desempregado na iniciativa privada. Essa realidade é frequente quando o cargo paga bem, ou seja, maiores salários atraem pessoas mais qualificadas!

Um dos meus colegas de trabalho tem mais de 25 certificações, outros são doutores e alguns outros continuam no mercado privado mesmo após se tornarem servidores públicos.

3. Trabalhamos com tecnologias modernas e interessantes

Se o orçamento do órgão priorizar a TI, teremos verbas interessantes para novos investimentos.

Em 2019 o TRT do Maranhão investiu em 2019 (sempre falo esse ano porque foi o último ano em que estive lá) quase 3 milhões de reais em equipamentos.

A maioria esmagadora dos tribunais brasileiros possui salas-cofres, redes SAN, storages, servidores chassi. Tudo isso com os softwares legalizados e com os equipamentos ainda na garantia do fabricante. Um ambiente assim é um lugar muito bom de se trabalhar.

Na área de governança, dezenas de órgãos já implementam há muito tempo ITIL e Cobit. Também temos centenas de iniciativas nas áreas de devops, metodologias ágeis, hiperconvergência, redes definidas por software, IA, machine learning, data mining, dentre outros.

4. Somos atualizados e recebemos treinamentos frequentemente

Os órgãos com mais orçamento, como os do Poder Judiciário, têm mais poder de fogo para prover treinamentos.

O último órgão onde trabalhei investiu 90 mil reais em capacitação no ano de 2019. Na maioria das vezes os treinamentos são oficiais e providos por empresas de renome nacional ou regional.

Desde que entrei no serviço público, em 2015, participei de 11 treinamentos presenciais ou EAD custeados pelos órgãos onde trabalhei. Realizei desde treinamentos simples como um curso de 20 horas sobre monitoramento com Zabbix, até treinamentos mais avançados e caros como os de administração de storages e redes SAN da Huawei e da Cisco.

5. Não trabalhamos só com o que gostamos

Na iniciativa privada ninguém quer um funcionário desmotivado. No serviço público também não. Apesar disso, podemos ser enviados para trabalhar com coisas que não gostamos. Isso é muito comum quando a gente acaba de ter sido nomeado para trabalhar no órgão.

Na minha época foram nomeados 19 servidores de uma só vez. Por isso, o secretário de TI pediu que enviássemos o nosso currículo antes de começarmos a trabalhar. Entretanto, cada um pôde escolher o setor de acordo com a sua ordem de classificação no concurso. Por isso, se duas pessoas quisessem ir para lugar que só tinha uma vaga, a classificação seria o critério de desempate.

Eu morria de medo de ir para o desenvolvimento, mas consegui ficar na infra. Duas amigas não tiveram a mesma sorte e, mesmo sendo desenvolvedoras, tiveram que passar dois anos trabalhando com banco de dados, Windows Server, antivírus e monitoramento. Ah!

Depois que passamos alguns anos no órgão, ainda podemos ser mandados para outro setor. Basta uma ordem do chefe. Se isso acontecer, o servidor vai ter que ir, mas é muito raro uma mudança como essa acontecer sem um diálogo prévio. Sou servidor público há 6 anos, mas nunca vi uma pessoa ser mudada de setor “à força”. É contraproducente, eu diria.

6. Não trabalhamos só de segunda a sexta das 8h às 18h

O expediente ordinário realmente costuma ser esse, mas os servidores que atuam na área de infraestrutura frequentemente são chamados a trabalhar finais de semana inteiros. Eu mesmo já trabalhei muitas vezes aos sábados e domingos.

Obviamente isso não acontece com setores como desenvolvimento de sistemas e governança.

Nos lugares onde trabalho, nós recebemos em banco de horas. Raramente somos remunerados em dinheiro. Entretanto, a nossa realidade não é a da maioria dos órgãos brasileiros como pequenas prefeituras que sequer possuem ponto eletrônico.

Falando em ponto eletrônico, se ao final do mês o servidor ficar devendo hora, ele tem até o mês seguinte pra pagar. Do contrário, automaticamente virá o desconto no contracheque.

8. No geral, ganhamos baixos salários

Infelizmente a maioria ganha muito pouco. Eu já cansei de ver editais que pagam um salário mínimo para um analista. O pior de tudo é que as condições de trabalho também são ruins: equipamentos antigos, sem garantia, Windows pirata e antivírus gratuito. Esses servidores precisam comprar conector RJ-45 pagando do seu próprio bolso. Por outro lado, analistas do Senado começam ganhando mais que um juiz: 26 mil reais por mês.

Para finalizar

Esses são fatos peculiares do servidor público de TI. Algumas já são conhecidas do público, mas outras são novidade.

Se você ficou com dúvidas ou até mesmo não entendeu algum trecho ou algum termo deste post, deixe o seu comentário.

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